Comer pouco e treinar muito: por que essa combinação merece atenção?
Você aumenta os treinos, tenta controlar a alimentação e espera melhorar o desempenho. Mas, com o passar das semanas, percebe mais cansaço, dificuldade para se recuperar e resultados abaixo do esperado.
Existem várias explicações possíveis para isso. Uma delas é a alimentação não estar fornecendo energia suficiente para acompanhar a rotina de exercícios e manter o organismo funcionando bem.
Na nutrição esportiva, essa situação merece atenção porque suas consequências podem aparecer tanto no desempenho quanto na saúde.
O corpo precisa de energia mesmo quando você está parado
A energia dos alimentos permite que você corra, pedale ou faça musculação. Ela também sustenta tarefas que acontecem o tempo todo: manter a temperatura corporal, produzir hormônios, renovar tecidos e sustentar as defesas do organismo.
Depois de descontar a energia utilizada no exercício, precisa sobrar uma quantidade suficiente para essas funções. Quando essa quantidade fica insuficiente, chamamos a situação de baixa disponibilidade de energia.
Imagine uma pessoa que passa a correr por mais tempo e acrescenta musculação à rotina, mas continua comendo a mesma quantidade — ou reduz as refeições. A alimentação pode deixar de acompanhar suas necessidades, mesmo que pareça semelhante à de antes.
O que é a deficiência relativa de energia no esporte?
Quando a baixa disponibilidade de energia é problemática, por sua intensidade, duração ou frequência, ela pode provocar um conjunto de alterações conhecido como deficiência relativa de energia no esporte, também chamado de REDs.
Isso pode comprometer funções como saúde hormonal, manutenção dos ossos, imunidade e recuperação, além do desempenho esportivo.
Um dia de alimentação abaixo do habitual não significa ter essa síndrome. O risco depende do contexto e da resposta individual, e o diagnóstico exige avaliação clínica.
Isso só acontece com atletas profissionais?
Também pode acontecer com pessoas que treinam por lazer ou para melhorar a saúde. O ponto central é a relação entre a alimentação e a demanda de exercício.
Além disso, não se limita a mulheres ou a pessoas muito magras. Homens também podem apresentar consequências da baixa disponibilidade de energia.
O peso corporal, sozinho, não permite identificar ou excluir o problema. Uma pessoa pode manter o peso enquanto o organismo reduz o gasto em algumas funções para se adaptar à escassez. Por isso, a avaliação precisa ir além da balança.
É possível comer pouco sem perceber?
Sim. A alimentação insuficiente pode acontecer por restrição intencional, mas também por dificuldades práticas.
Uma rotina de trabalho intensa, pouco tempo para cozinhar, aumento recente dos treinos ou dificuldade para comer depois do exercício podem contribuir. Em outras situações, a pessoa elimina grupos de alimentos e não encontra substituições que atendam às suas necessidades.
Também é possível escolher alimentos nutritivos e, ainda assim, não consumir energia suficiente. A qualidade da alimentação importa, mas a quantidade precisa acompanhar a demanda.
Por exemplo: trocar repetidamente uma refeição completa por uma salada pequena pode reduzir bastante a energia disponível, dependendo da composição e das porções.
Quais sinais merecem atenção?
Alguns sinais que justificam investigar a alimentação e a recuperação são:
Cansaço persistente e dificuldade para se recuperar entre os treinos.
Queda de desempenho ou dificuldade incomum para completar sessões habituais.
Lesões recorrentes, especialmente lesões ósseas por estresse.
Menstruação que fica irregular ou deixa de acontecer.
Redução da libido.
Doenças frequentes e mudanças persistentes de humor.
Esses sinais não confirmam REDs. Eles também podem ter outras causas, como alterações do sono, deficiência de ferro ou outras condições de saúde. A avaliação profissional ajuda a diferenciar essas possibilidades.
Por que a menstruação merece atenção especial?
A função reprodutiva é sensível à disponibilidade de energia. Quando ela está comprometida, podem ocorrer alterações nos sinais hormonais que regulam o ciclo menstrual.
Deixar de menstruar não deve ser tratado como uma consequência esperada de “treinar direito”. Mudanças persistentes no ciclo precisam ser investigadas, inclusive para excluir outras causas.
O estudo clínico REFUEL acompanhou mulheres fisicamente ativas com alterações menstruais e encontrou maior recuperação da menstruação com o aumento da ingestão de energia. Esse resultado reforça a importância da alimentação no tratamento, sem estabelecer uma quantidade única que funcione para todas.
Como a falta de energia pode afetar os ossos?
O osso é um tecido vivo, que passa continuamente por renovação. Esse processo depende de energia, nutrientes e um ambiente hormonal adequado.
Quando a disponibilidade de energia fica comprometida, a manutenção óssea pode ser prejudicada. Associada à repetição de cargas do exercício, essa condição pode aumentar a vulnerabilidade a lesões por estresse.
A recuperação dos ossos também pode ser mais lenta do que a melhora de outros sinais. Em uma análise do REFUEL, o aumento da alimentação melhorou a frequência menstrual, mas não produziu melhora da densidade mineral óssea durante os 12 meses avaliados. Isso mostra por que o acompanhamento precisa continuar mesmo quando alguns sintomas melhoram.
Como a alimentação e o treinamento podem ser ajustados?
O cuidado procura restabelecer energia suficiente para o organismo. Dependendo da situação, isso envolve aumentar a alimentação e ajustar o volume ou a intensidade dos exercícios.
Na prática, o nutricionista pode ajudar a:
Organizar refeições e lanches compatíveis com os horários de treino.
Ajustar porções quando a demanda de exercício aumenta.
Incluir fontes de carboidratos, proteínas e gorduras em quantidades adequadas.
Encontrar opções práticas para quem tem pouco tempo ou apetite.
Acompanhar a resposta aos ajustes junto à equipe de saúde.
Quando há medo intenso de comer, culpa após as refeições ou exercício usado para compensar a alimentação, o apoio psicológico também pode fazer parte do cuidado.
É preciso parar de treinar?
Essa decisão depende da gravidade do quadro. Algumas pessoas precisam de ajustes; outras podem precisar interromper temporariamente determinadas atividades.
O diagnóstico e a definição da participação esportiva devem considerar sintomas, histórico de lesões, avaliação clínica e exames quando indicados. A condução pode envolver médico, nutricionista, psicólogo e profissional responsável pelo treinamento.
Se você percebe cansaço persistente, alterações menstruais, lesões recorrentes ou queda de desempenho, procure avaliação. Esses sinais ajudam a orientar o cuidado e a construir uma rotina em que alimentação, exercício e recuperação sejam compatíveis.
Referências científicas
Mountjoy M et al. 2023 International Olympic Committee’s (IOC) consensus statement on Relative Energy Deficiency in Sport (REDs). British Journal of Sports Medicine. 2023;57:1073–1097. Acessar artigo.
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De Souza MJ et al. Bone mineral density in response to increased energy intake in exercising women with oligomenorrhea/amenorrhea: the REFUEL randomized controlled trial. 2022. Acessar artigo.
Australian Institute of Sport. Energy Availability. Material técnico sobre disponibilidade de energia, saúde e desempenho. Acessar material.
Australian Institute of Sport. What is the relationship between disordered eating and low energy availability? Acessar material.
Nutricionista Fernanda Guedes
CRN-3 74281
@nutrinandaguedes